Caculé, o quilombo de um homem só

Caculé, o quilombo de um homem só

Nasci em uma cidade do interior do Estado da Bahia que teve a origem de seu nome de um modo muito particular, e é isso que agora vou contar.
Por Fabíola Aquino Coelho (ao editorial do Jornal Agora On-Line)

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Manoel Caculé era um escravizado que vivia na Fazenda Jacaré, de Dona Rosa Prates, cujas terras se estendiam pela região de Jacaré, povoado do que mais tarde viria a ser a cidade de Ibiassucê, a cerca de 750 km da capital, região do sertão baiano que fica próximo a divisa com o norte de Minas Gerais.

Conta-se que um dia, Manuel seguia mata a dentro na procura de água para o gado, eram tempos de seca. Foi então que ele descobriu uma lagoa belíssima que ficava nos limites da fazenda de “sua proprietária”. Essa era uma região farta em água, ao lado da lagoa também havia um farto rio, o Rio do Antonio. Tudo aquilo era novo para ele, e diante daquele oásis desconhecido por seus senhores não teve duvida, ficou lá. Manuel Caculé decide “fugir” e montar ali o seu quilombo solitário. Isto aconteceu por volta de 1854.

Por ali ficou desfrutando da liberdade adquirida, plantou, colheu e vendeu o fruto do seu trabalho nos arredores, até que um dia foi localizado pelos seus antigos capatazes. O “escravo fujão” fora encontrado e para a surpresa de todos, com o dinheiro que economizou nos seus anos de “liberdade” Manoel Caculé pôde comprar sua alforria e tornou-se definitivamente um homem livre.

Foi a partir de então, que os viajantes que tomavam aquela direção ao se cruzarem pelo caminho perguntavam uns aos outros de onde vinham e para onde iam e a resposta era sempre a mesma: a Lagoa do Caculé. Desse modo, a região que encantou Dona Rosa Prates e a fez transferir a sede da fazenda para as proximidades da lagoa, passou a designar-se como município de Caculé a partir de 1919.

Essa é a historia do ex-escravizado que tornou-se uma espécie de herói do imaginário coletivo de toda gente que nasce ou se encanta com a cidade. É assim que ele vive imortal e por isso, por causa do orgulho de dizer que minha origem remonta de um fato tão peculiar que sou motivada a empreender o projeto de curta-metragem documental “Caculé, uma cidade do milênio”, que pretende ter 26 minutos de duração.

Este é um projeto que utilizará elementos de ficção, em sua abertura, mas com a ajuda da direção de arte fará a transição para a parte documental. Este filme tem como propósito a valorização das redes solidárias que levaram este município, situado no Território de Identidade do Sertão Produtivo a estar entre os 06 selecionados para a Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, realizada no Paraná, em maio de 2011.

O filme destacará as iniciativas da sociedade civil e do poder público local em prol das 8 metas do milênio revelando-as dentro do cotidiano dos moradores de Caculé, cuja população é de 22.236 habitantes. Mostraremos realidades pouco conhecidas e compreendidas, na maioria das vezes, especialmente para os moradores dos grandes centros urbanos que nunca vivenciaram a vida do interior. Os personagens do documentário serão pessoas envolvidas nas ações que resultaram na inclusão do município entre aqueles que articulam desenvolvimento e sustentabilidade. Os moradores participarão da produção do filme protagonizando as suas próprias histórias e vivências além de participar da cena final do filme que será um abraço da população na lagoa.

Nosso modelo de produção é um case a parte, vou falar dele no próximo texto, mas antecipo que será criada uma rede colaborativa onde os interessados em ver o filme podem fazer uma compra antecipada do DVD e contribuir desta forma para o levantamento orçamentário que viabilizará a realização do doc-fic “Caculé, uma cidade do milênio”. Aguardem maiores novidades!

Fabíola Aquino Coelho cineasta e jornalista

 

Fonte:  transcrição do editorial do jornal Agora On-Line –  http://agora-online.com.br/colunas/211-cacule-o-quilombo-de-um-homem-so  – acessado em 25.2.2016